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Werinton Kermes, futuro Secretário de Cultura, responde a processos na justiça

via Z Norte

“Lógico que eu gostaria de não precisar de bandido resolvendo a minha vida.” Essa é apenas uma das falas do futuro secretário de cultura Werinton Kermes, flagrado em reuniões que foram gravadas na cidade de Votorantim. Os vídeos em que aparece o empresário, jornalista e agora Secretário de Cultura do governo Crespo, a partir de 2017, Werinton Kermes foram realizados em 2015, mas só vieram à tona em setembro deste ano. A publicação ganhou mais destaque após o anúncio de Crespo no sábado (3) de que Kermes faria parte do primeiro escalão da Prefeitura de Sorocaba a partir de janeiro.

Toda a conversa, que integra um inquérito que está sendo investigado pelo 3º Distrito Policial de Votorantim, faz parte do documento gravado de forma clandestina no escritório do advogado José Antonio Galvão. Nas gravações, Kermes comenta a situação financeira da emissora de TV que possui na cidade e fala da pressão sofrida por ele para que um programa, apresentado por Lilian Galvão, esposa do advogado, seja retirado ar.

“Vamos ser mais claros. Eu vim aqui, mais uma vez, buscar uma chance com vocês de resolver o meu problema financeiro (…). Você acha que eu não tenho o direito de resolver a minha vida financeira”, questiona Kermes, que já foi secretário de cultura de Votorantim. Em determinado momento de um dos vídeos, os interlocutores falam dos problemas e Kermes diz sobre como costuma, ou, pelo menos, como acha melhor resolvê-los. “Eu, modéstia a parte, desculpa essa valentia que você tem de chegar no papel ‘você vai dar o dinheiro para eles lá e cabou ou vai todo mundo pro Gaeco (…)’. Me perdoe você que é um gerente da lei e da justiça. Eu pego na esquina e dá certo. Eu sou f**** de uma p***. Dá certo. Eu pego na esquina”, diz. “É muito mais gostoso”, afirma por três vezes. “Eu que não acredito na lei e não acredito na justiça”, ressalta.

Em outro trecho, os interlocutores do vídeo falam em “pagar pau” para pessoas indignas. “Você acha certo a gente ficar pagando pau para pessoas indignas?”, questiona Lilian Galvão. “Não está certo. Eu estou pagando um pau, porque eu preciso desse pau. Mas não é certo. Eu tenho vergonha de mim”, responde Kermes.

Em outro trecho da gravação, um dos interlocutores sugere como agir com os agentes públicos.  “É o seguinte: nós temos provas de que vocês estão praticando crime. Ou vocês vão abrir as pernas ou nós vamos meter vocês tudo na cadeia. Agora, se essas empresas não entrarem no jogo com a gente, pagando para o Werinton (…). Eles sabem o que eles fizeram”, sugere Galvão. “Vamos deixar como está, ver o que vai acontecer, jogar nas mãos de Deus”, pondera Kermes.  “Lógico que eu gostaria de não precisar de bandido resolvendo a minha vida”, acrescenta em outro trecho.

A Câmara de Votorantim e a Prefeitura da cidade são citadas em vários momentos das gravações. Em um deles, Kermes fala que tem sofrido pressão do Legislativo de Votorantim com relação ao fim do programa. Ele cita nominalmente dois vereadores. “Fechou em cima de mim e tenho que dar uma resposta”, expõe. Em outro ponto, Kermes fala de uma contratação para que fosse gerenciado verbas publicitárias da cidade, que segundo ele estaria armada.

Kermes continua falando dos problemas financeiros em outro trecho do material. Em determinado momento, ele diz que R$ 200 mil resolveria os seus problemas e que, assim, poderia romper com políticos da cidade.

Um caso investigado como estelionato

Há ainda outro material que cita o jornalista Werinton Kermes. Desta vez, uma mulher declara que teve prejuízos após assinar documentos, supostamente, solicitados por ele. “Eu sou uma vítima dele. Ele abriu firma no meu nome. Sou diretora de uma firma, sou muito rica. Isso acabou prejudicando os meus documentos”, afirma Aparecida Marta de Oliveira, moradora da comunidade Palmeirinha. “Se a gente fosse empresário, a gente não taria dentro de uma favela, de um barraco”, lembra. “O que ele fez foi feio. (…) Nós somos apenas favelados”, diz ao longo do vídeo. Várias pessoas procuraram o 3º DP para expor a situação. O caso é investigado como estelionato. Conforme apurado pelo Z Norte, os moradores descobriram o problema após apresentarem restrições no nome e ter cancelados benefícios como o “Bolsa Família”.

O “delator”

O advogado José Antonio Galvão, que é filiado ao partido SDD, foi procurado para comentar o porquê da gravação do material. “A razão de ter feito a gravação é que as ameaças ao direito de informação denunciadas pelo Jornalista e diretor da TV Votorantim estavam a cada dia sendo intensificadas e eram graves, mas não divulgadas pelo mesmo jornalista, o qual tem o dever legal de informar”, explica.

Galvão afirmou também que quando ocorreu as primeiras reuniões gravadas, ele “sequer era presidente do partido Solidariedade e sempre quando procurado pelo jornalista e por sua sócia, sempre foi na condição de apresentador e formador de opinião do programa apresentado por Lilian Galvão.”

Por fim, Galvão afirmou que Kermes entrou na justiça para que o vídeo fosse retirado do ar, que desistiu da ação que pedia indenização, mas que ele próprio, ou seja, Galvão, pediu o andamento da mesma.

Crespo não sabia dos inquéritos, diz assessoria

O prefeito eleito, José Crespo (DEM), foi procurado para comentar a situação na quinta-feira (8). A Assessoria de Imprensa afirma que “o prefeito José Crespo não tinha conhecimento desses inquéritos até ser questionado pelo jornal. Mas, a partir da informação, tomou conhecimento junto ao secretário e seu advogado.”.

Questionado sobre o que pensa sobre a situação, Crespo afirmou, também através de seu futuro secretário de comunicação, Eloy de Almeida, que os inquéritos devem ser apurados e que as supostas denúncias esclarecidas. “Afinal, qualquer pessoa pode acusar outra. A justiça existe para isto: apontar quem tem razão”, diz a nota.

Ao ser questionado se as afirmações de Kermes, bem como as acusações que lhe são imputadas não comprometem o engajamento e a determinação de ética do prefeito eleito, a Assessoria informou que não há nenhuma acusação comprovada contra o secretário escolhido Werinton Kermes. “Sob o ponto de vista jurídico, todo cidadão com os direitos políticos vigentes poderá ser nomeado e exercer qualquer cargo público, incluindo o de secretário municipal. Se e quando for apresentado ao prefeito um documento do Ministério Público ou do Judiciário, afirmando o contrário, ou seja, a suspensão dos direitos políticos, o cidadão ficará impedido de exercê-lo e não exercerá função pública no governo Crespo”, afirma.

Por fim, Crespo foi questionado se a manutenção de Kermes no secretariado não contamina a futura administração perante a opinião pública. “Não, não contamina. Ser acusado ou responder a inquéritos não faz do alvo destas acusações ou investigações um culpado. É preciso primeiro que a apuração seja feita pela justiça integralmente. Só se deve fazer julgamentos a partir disso”, lembra a resposta da Assessoria, que ainda dá um puxão de orelha na imprensa. “Se a imprensa resolver divulgar todos que têm acusações contra si, terá de fazer inúmeras edições, pois a justiça está atulhada de casos assim. É lamentável que se ocupe disso, em vez de verificar os currículos dos escolhidos e o que eles podem fazer pela cidade”, termina.

No mesmo e-mail direcionado ao prefeito eleito, a reportagem também ficou a disposição de Werinton Kermes para eventual esclarecimento ou posicionamento sobre a situação, o que não ocorreu até a final desta edição. A Assessoria de Crespo afirmou apenas que o futuro secretário foi questionado sobre o caso, mas que seu advogado não estava na cidade.

Sobre os inquéritos em andamento, o delegado do 3º Distrito Policial de Votorantim, Paulo Cesar Martins Neves, se limitou a dizer que as investigações existem e estão em andamento. Algumas pessoas, inclusive, já prestaram depoimento. Weriton Kermes ainda não depôs nos casos.

O Ministério Público da cidade de Votorantim também foi procurado pela reportagem. Wellington Veloso, promotor do caso, afirmou que não comenta inquéritos em andamento.

O Z Norte também tentou contato com a Prefeitura de Votorantim e com a Câmara da cidade, mas sem sucesso devido ao feriado municipal do aniversário da cidade.




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