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Sorocaba e suas ruas

Editorial

O domingo sorocabano foi diferente dos outros. Talvez tenha sido uma de suas manifestações mais notórias em períodos democráticos. Sorocaba de Verdade acompanhou as manifestações. Vimos muita gente bonita e feliz pelas ruas de nossa cidade. Havia muitas camisas da seleção brasileira e uma incrível oscilação na contagem do público. Mas isso realmente não é importante.

O que importa é a narrativa que se construiu em torno da manifestação deste domingo: contra “a corrupção que aí está”, contra Dilma etc, etc… Muita “gente de bem” contra algumas coisas muito importantes, mas alheia a outras tantas.

Das corrupções, não vimos ninguém se lembrar das corrupções do metrô de SP, das obras paradas do Pannunzio, da péssima gestão da água no Estado e na cidade, responsáveis ora por falta de água, ora por enchentes repentinas ora por dengue inaceitável.

Também não vimos ninguém falar das demissões na Coca-Cola, da violência da polícia contra a juventude negra, da exploração sexual de crianças, da taxação sobre grandes fortunas ou do crescente e enlouquecedor trânsito de Sorocaba.

Mas nossa preocupação principal é com as causas de nossos maiores problemas: o financiamento empresarial da política. Isso, sim, é sério. Pois é a privatização da política que nos faz esquecer da desigualdade social, que faz com que os legislativos sejam tão lentos, que mantém as espúrias e inadmissíveis coligações partidárias que apenas garantem nossas ingovernabilidades de todos os dias e que nos fazem reféns das marcas que mantém vivos os meios de comunicação que mais nos desinformam do que nos esclarecem.

Neste 15 de março, a voz rouca das ruas sorocabanas não tinha sotaque das periferias e não era multicolor. Era majoritariamente a mesma voz que se houve há muito tempo (a melhor galeria de fotos que vimos até agora é do Jornal Cruzeiro do Sul), motivadas pelos mesmos valores que já conhecemos, só que agora gritou com mais força e isso terá impacto inegável. Mas isso também não é o mais importante.

O que vale é saber que a democracia fica mais viva quando se faz no meio da rua em uma tarde de domingo. Porque quem faz a política é o povo, na sua pluralidade, com seus sonhos e equívocos, com suas éticas e estéticas. Os que foram às ruas de nossa cidade tinham como motivação a rejeição à Dilma, o que já sabemos ao menos desde outubro passado. Mas, e os que não foram? O que querem? O que sonham? O que pensam sobre esse domingo?

A vida continuará muito viva depois disso tudo. Outros tantos virão às ruas, com causas e bandeiras distintas. Esperemos que Sorocaba recupere a dimensão inclusiva de sua antiga “Noite do beijo”, e que suas ruas gritem por distribuição de renda, por reforma política e um pouco mais de vergonha na cara.

Ainda que possamos duvidar dos números de ontem ou das pautas dos manifestantes, a bola agora está com a Presidenta Dilma. Parece-nos que, independente do que venha a fazer, a venezualização será crescente e ela ficará mais frágil. Salvo se recuperar o crédito com seu eleitorado, aparentemente cada vez menos contente com ela. Veremos.




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