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Quando cheguei aqui era tudo mato

por Francine Ramos

Quando recebi o convite para escrever aqui, o meu pensamento dirigiu-se a várias histórias sorocabanas, que ouvi do meu avô ou de algum integrante da minha família. Mas também muitas imagens da cidade – de hoje e de ontem, povoaram a minha cabeça e eu fiquei me perguntando o que é Sorocaba realmente: uma ponte, um rio, ruas estreitas, paralelepípedos, prédios espelhados, grandes avenidas, pequenas praças, grandes praças, bicicletas, zoológico, muitos shoppings (falidos), bares, restaurantes, shows em lugares aberto, árvores centenárias, condomínios luxuosos, pequenos bairros tradicionais, a periferia, casas inacabadas, inundações (todo ano), sorocabano não dá seta, a coxinha da Real, o cachorrão na ponte, o trânsito, o centro da cidade, comer pastel na feira, o rock, o sertanejo, o samba… são tantas coisas. E muitas se confundem com o Brasil, o que é maravilhoso, mas, por outro lado, o que seria, de fato, a Sorocaba de Verdade?

Com seus mais de 600 mil habitantes a cidade tem uma história na vida de todos os moradores, mas também aos que por aqui passam. Amigos e familiares que visitam a Terra Rasgada sempre têm uma boa impressão dos espaços, das pessoas, do clima, “o ar” sorocabano que, um pouco seco, deixa a paisagem com um leve desfoque bucólico, tão belo (ou é culpa da minha miopia).

Assim, escrever no Sorocaba de Verdade se torna um desafio pessoal, porque preciso (re)descobrir a minha própria cidade. Nós, moradores cheios de vícios, acabamos por não perceber a cidade, não reparamos em sua beleza, ora interiorana, ora com ares de capital. Da zona norte à zona sul a diferença é enorme; da leste a oeste, também encontramos o distanciamento, fruto, talvez, daquela coisa bairrista, que nos faz acreditar que o próprio bairro é melhor para se morar. No entanto, com as diferenças, conseguimos também perceber as qualidades, que se destacam nos detalhes, para um olhar otimista, como o meu.

Então, fica a pergunta; o que é Sorocaba, de verdade? Lembrei-me do meu avô, apontando com o dedo para o final da rua em que ele morava, na Vila Gabriel, dizendo “quando cheguei aqui era tudo mato, ali, mais para a esquerda, o seu pai jogava futebol com os amigos e um pouco mais pra lá tinha o abatedouro, você já viu um boi morrer? Aqui na rua eu fui o primeiro morador, depois chegou o Seu Zé, era tudo mato, era tudo terra…”

Francine Ramos é sorocabana, professora, mediadora de leitura e tem um blog, o Livro&Café. 




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