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Projeto “Vozes da Cidade” escuta crianças sobre os problemas de cidade brasileira

Via Primeira Infância

Acreditar que as crianças não têm o que dizer é confirmar o que muitos militantes da causa da participação política desse público dizem: que a nossa sociedade é “adultocêntrica”. Ou seja, compete somente aos adultos a decisão dos destinos da população. Na contra mão, o projeto Vozes da Cidade, que busca contribuir com um modelo de desenvolvimento inclusivo, com vistas a reduzir as desigualdades que afetam a vida de crianças e adolescentes, incorporou, além das vozes dos adolescentes, as vozes das crianças, numa ação inédita dentro da iniciativa nacional do UNICEF, Plataforma dos Centros Urbanos (PCU), da qual o projeto faz parte.

As escutas dos 10 grupos de criança (um por região administrativa da cidade) sobre os problemas que elas vivenciam e quais propostas para a cidade elas têm, estão em fase de conclusão. E Já é possível afirmar que elas têm muito a dizer.

Ana Marcílio, psicóloga e especialistas em infância, consultora associada da ONG Avante-Educação e Mobilização Social, e uma das coordenadoras das “consultas com crianças sobre a cidade –  seus problemas e como melhorá-los”, chama a atenção para o quanto elas estão atentas ao seu entorno e o quanto elas estão conscientes de que falta muita coisa para melhorar. “Elas querem lugares limpos, bonitos, espaços seguros para brincar e a presença da natureza”, disse, fazendo um resumo das falas das crianças até o momento.

E as crianças falam com a alegria de estarem sendo escutadas sobre temas que dificilmente lhes são perguntados. Os meninos e meninas da escola Mãe Hilda, localizada na sede do bloco afro Ilê Aiyê, na Liberdade, por exemplo, tocaram, cantaram e dançaram para a equipe do projeto ao final do encontro.

Consultas

E foi desse grupo da Liberdade que veio a informação de que faltam praças no bairro para brincar e que a escorregadeira da comunidade está descuidada ao ponto de lâminas de metal enferrujadas se destacarem do brinquedo, causando cortes em quem teima em usá-la para se divertir. “Somente quem precisa brincar, uma necessidade básica para a construção de adultos saudáveis, pode ter esse olhar”, pondera Ivanna Castro, psicóloga e, juntamente com Ana Marcilio, coordenadora do processo de consulta das crianças, responsável pela consulta no Ilê Aiyê.

Foi Laís Coelho, de 11 anos, quem apontou a degradação do parquinho como parte de uma lista grande, escrita com seus colegas na faixa etária entre 9 e 12 anos, sobre as deficiências do bairro. Dois deles ainda mostraram as cicatrizes dos cortes causados pela escorregadeira enferrujada. O encontro na Liberdade aconteceu no dia 2 de setembro.

Já a região de Pau-da-Lima foi contemplada no dia 9 de setembro. Reunidas nas sedes da obra social da Mansão do Caminho, as crianças do bairro também falaram muito sobre os espaços públicos inexistentes e/ou pouco acolhedores. Alexandre Cassino, 5 anos, apontou que no bairro “tem plantas, mas não têm árvores”. Shopia Oliveira, também de cinco anos, reconhecendo uma relação de causa e efeito, complementa a fala de seu colega: “e não tem borboletas também”, disse.

E há fatos da desorganização dos adultos que lhes chamam a atenção e chegam a deixá-los chateados. Emanuele da Silva conta que “se irrita” com o fato de em Pau da Lima, os carros estacionam nas calçadas, forçando os pedestres a se arriscarem andando nas ruas. E não é somente o bairro que lhes inspira críticas, a própria estrutura da Mansão do Caminho, onde estudam e convivem durante todos os dias da semana, também foi apontada, mostrando que eles, apesar de pequenos tem uma percepção crítica do seu entorno.

“Não gosto do fato de que a partir de determinada idade, perdemos o direito de usar a piscina”, declarou a mesma menina que se irrita com os carros nas calçadas, sendo apoiada em sua colocação por outros coleguinhas. Os meninos e meninas da Mansão do Caminho têm entre 5 e 6 anos e são os de menor faixa etária entre os escutados até agora. Apesar da crítica, declaram abertamente seu amor pelo local.

Nem tudo são flores

As crianças também percebem problemas que os adolescentes e adultos relatam. Segundo Ivanna Castro, os tiros, a maneira como a polícia age, a violência e a falta de segurança estão presentes nas falas das crianças, desde as mais novas, como as que já começam a entrar na adolescência. “E é visível, em alguns casos, a naturalização da violência em suas falas. Um dos meninos narrou o assassinato de um traficante da região onde vive, na Liberdade, com tantos detalhes e de uma maneira tão natural, que chamou a atenção”, conta.

O Vozes da Cidade: crianças e adolescentes participando da construção de Salvador é um projeto inscrito na iniciativa do UNICEF – Plataforma dos Centros Urbanos (PCU), que está acontecendo em mais sete capitais do país. Tendo a Avante-Educação e Mobilização Social como parceira técnica local, o projeto é uma realização conjunta da Prefeitura Municipal de Salvador, do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) e do UNICEF, e conta ainda com a Coelba como parceira institucional.

(Informações e fotos: Avante e United Way Brasil)




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