Aécio SdV

O que esperar das esquerdas brasileiras agora?

Por Glauber Piva*

Este 13 de março, além de evidenciar um rechaço à “classe política”, escancara também a fragilidade das esquerdas brasileiras, hoje sem bandeiras claras, sem discurso agregador, sem liderança mobilizadora.

  1. A semana amanheceu azeda e nebulosa para a política brasileira. Engana-se quem acha que a acidez e as sombras são exclusividade do petismo. Houve grande reação das ruas neste domingo contra o que muitos chamaram de classe política, uma categoria mal explicada cuja definição parece variar conforme a posição do manifestante.
  2. Curiosamente, ao mesmo tempo em que se criticava a classe política, pouco se praguejava contra o sistema político o que demonstra que os bonitos e bonitas que estiveram nas avenidas neste domingo estão muito mais interessados em corrigir a aparência do que em atingir a essência de nossos graves problemas.
  3. Mas é inegável, porém, que, numa comparação rápida, a situação é bem pior para aqueles que acreditam que a função mais importante do Estado é promover justiça e equidade e, portanto, combater desigualdades de várias ordens.
  4. E, por que o azedume não é o mesmo entre aqueles que defendem progressiva restrição de direitos, conveniente desregulamentação da economia e frequente apoio do Estado para o que eu chamaria de pré-capitalistas iniciativas empresariais? (Afinal, o Brasil é sabidamente um país no qual muitos defensores do capitalismo clamam pelo seguro do Estado contra os riscos do sistema que tanto defendem.)
  5. O ideário da classe média urbana do Brasil hoje está empoderado. Essa maioria branca e bem posicionada que assiste a Globo, lê Folha de São Paulo e assina aquela revista foi às ruas e mostrou força, por isso gritou, dançou e desfilou bandeiras que em outros tempos estariam constrangidas ao fundo de uma gaveta. Legítimas ou não, parciais ou não, o que nos importa aqui é reconhecer que o discurso daqueles que chamarei aqui de “direita” (por mera conveniência vocabular) está consolidando sua hegemonia.
  6. Isso não quer dizer que o movimento deste domingo seja definitivo no jogo político brasileiro, já que, apesar de terem um volume e relevância impressionantes, as manifestações não conseguiram ter o cheiro de povo que as democracias tanto exigem.
  7. Mas é fundamental compreender que, neste momento da história brasileira, as “esquerdas” parecem estar socialmente enfraquecidas.
  8. E por que falo em “direita”, no singular, e em “esquerdas”, no plural? Pela simples razão de que os muitos que foram às ruas neste domingo, embora plurais e diversos, representam uma visão de mundo majoritariamente homogênea: há uma lógica de consumo e felicidade privada que organiza suas bandeiras e manifestações políticas, ainda que nem todos tenham ido à avenida Paulista com camisas da CBF ou babás empurrando os carrinhos de seus filhos.
  9. Os outros, que na verdade somos nós, chamo de “esquerdas” pelo simples fato de que, além de sermos severos defensores do combate a todo tipo de exploração, exibimos muito mais força na fragmentação de nossas bandeiras que unidade em nosso apetite de mobilização e transformação.
  10. As vaias a Aécio e Alckmin foram sucedidas de uma enxurrada de memes nas redes sociais que demonstram que eles não ganharam com o movimento do dia 13 de março. Se é verdade que eles não ganharam, também é verdade que, por hora, nós estamos perdendo feio. Por que? Desde quando? E agora, o que fazer?
  11. O PT ganhou as últimas quatro eleições. Quando venceu em 2002, apesar da hoje muito criticada Carta aos Brasileiros, era a grande força organizadora das bandeiras de esquerda no país. Debaixo da liderança do PT havia centrais sindicais, movimentos agrários e urbanos e outros vários partidos políticos. Hoje, o PT não é mais essa força agregadora e não sabemos se um dia voltará a sê-lo. Com a brutal e espetacular fragilização do PT, qual será (ou quais serão) o guarda-chuva que vai abrigar as várias concepções de mundo hoje dispersas em várias organizações de esquerda?
  12. Este 13 de março, além de evidenciar um rechaço à “classe política”, escancara também a fragilidade das esquerdas brasileiras, hoje sem bandeiras claras, sem discurso agregador, sem liderança mobilizadora.
  13. Temos ido às ruas para defender um projeto que não executamos, uma visão de mundo que não é visível para a maioria e nosso grande líder hoje está achacado por cães raivosos. Mas, de que se alimenta a política se não de esperança, se não de futuro? Nossa divisão e nossa miopia nos impedem de falar de futuro, mais ainda quando nos falta tempo e talento de nos entender sobre o que está acontecendo.
  14. Que fique claro. Não teremos como falar de futuro e de esperança se nossas práticas estiverem sempre contaminadas pelo mesmo ideário conservador daqueles que nos envenenam a alma. Quantos dos governos liderados por nós se contentaram a gestões melhoristas sem qualquer disposição a disputar visões de mundo? Quantas de nossas lideranças se conformaram com as práticas individualistas da direita que diziam combater? E não foi exatamente assim que que nos recusamos às transformações profundas em nome de acordos por cima?
  15. Ou você acha aceitável que, quase quatorze anos depois de assumirmos eleitoralmente o protagonismo político no país, continuemos tendo apenas 9% de mulheres no parlamento nacional enquanto países como Equador e Bolívia têm muito mais (42% e 52% respectivamente). Isso se dá pelo simples fato de que nos acomodamos a um sistema político que exclui as mulheres e consolida a política como expressão de nossas testosteronas coletivas. Afinal, denunciar e superar o machismo é uma pauta de esquerda. Ou não é? E por que não enfrentamos isso criando mecanismos que efetivamente convidassem as mulheres a participar do jogo eleitoral e viessem em massa mudar a política?
  16. Infelizmente, na pauta da direita – essa que reclama seletivamente da corrupção – não vi ninguém denunciar o machismo que exclui as mulheres do jogo político. Ao contrário, os ecos das milhares de vozes deste domingo me indicam que eles não entenderam que o problema é a regra do jogo, não o número da camisa de quem vai bater o pênalti.
  17. O problema grave não é a corrupção de uns e outros, mas a corrupção institucionalizada, ou seja, essa democracia de CNPJ que temos hoje, na qual as empresas são mais importantes e influentes que os cidadãos e cidadãs.
  18. Se as esquerdas não se dispuserem a recompor suas práticas e seus discursos e assumirem a defesa de uma radicalização democrática no país, serão eliminadas do jogo, tanto formalmente, com pequenos e grandes golpes legislativos e judiciais, quanto socialmente, com o aprofundamento dessa hegemonia elitista que avança brutalmente sobre todos nós.
  19. O fato é que todos perderam, mas uns perderam mais. Eu não espero, não proponho e não vou contribuir para que os progressistas se calem e abandonem o sonho de um país sem desigualdades. Mas, para que sigamos sendo relevantes para a sociedade brasileira, teremos de convencer a sociedade de que estamos realmente comprometidos com o futuro.
  20. Os programas e projetos que já executamos devem ser defendidos, mas eles só terão sentido se servirem para alicerçar novos avanços e alavancar outros tantos sonhos de acesso a bens culturais e direitos sociais. Caso contrário, ficaremos ultrapassados e seremos ridicularizados pela história: ela sempre é implacável com quem perde a capacidade de imaginar o futuro.
  21. O desafio não é pequeno. E daí?

Foto: G1

*Glauber Piva é mestre em Políticas Públicas e Formação Humana pela UERJ e cientista social pela USP. Foi diretor da Agência Nacional do Cinema – ANCINE.




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