Golpe Lucia Amary

O limite entre o direito democrático de se manifestar e a intolerância

Manifestações a favor e contra o impeachment, paralisação dos trabalhadores rodoviários, passeatas, saraus, trollagens na web, correntes nas redes sociais e ocupações de ruas, esquinas e escolas. Sorocaba definitivamente não ficou de fora do turbulento cenário político nacional.

O protagonismo nas ruas e nas redes sociais está em disputa, o que é notório na cidade. Soma-se a isso o agitado momento da política municipal, com eleição para o presidente da Câmara e, principalmente, a aproximação das eleições municipais. O espaço, a cidade, as ruas se tornam, portanto, palco de uma disputa política cada vez mais intensa.

A democracia é, por excelência, um território de explicitação de dissensos. Portanto, na democracia, não há homogeneidade, mas diversidade, conflito e, consequentemente, a obrigação da tolerância.

A disputa pelo espaço público se faz das mais diversas formas. E isso é saudável para um espaço que se julgue democrático e irrestrito. Muitas vezes nos surpreendemos, não estamos acostumados, após décadas e décadas de uma ditadura – agora velada, mas ainda presente – a presenciar e saber respeitar a manifestação contrária a nossa opinião, a respeitar e entender essa batalha pela rua, pela cidade. A narrativa intolerante que nos seduz diariamente, nos faz reagir de maneira violenta: se o outro está na rua, exigimos que saia e se afaste de nossos olhos e narizes. Algo que nos incomoda está presente na paisagem? Preferimos apenas retirá-lo ao invés de discutir o que ele representa.

Pichações

Nessa disputa pelas ruas e espaços um novo componente surgiu em Sorocaba: as pichações em edifícios públicos e privados. Entendemos o papel da pichação, compreendemos o que ela pode significar na luta diária pelo protagonismo do espaço na cidade. Mais que isso. Em geral, as forças populares precisam usar de instrumentos populares para que suas opiniões reverberem. Por isso, lambe-lambes, faixas e grafite são usadas e encontram eco entre jovens e lideranças do movimento social.

Ao contrário deles, os setores economicamente mais organizados, encontram nos jornais e televisões a melhor maneira de se expressar e, com isso, convencer o mundo de que seus valores são os limpos, cheirosos e corretos. Essa divergência histórica, porém, nos obriga a perguntar: quem realmente ganha com esse movimento intenso na disputa pela voz da cidade?

O problema, porém, está na forma dessa expressão. Nesta semana, o zoológico “Quinzinho de Barros”, o escritório político da deputada estadual Maria Lúcia Amary e a Casa do Cidadão da zona leste foram pichados com frases que diziam “Não ao golpe” e “Fora Cunha”. Prontamente a mídia e políticos da região passaram a vociferar contra o que chamaram de “depredação”.

Fora CUnha SdV

Para além da pichação do patrimônio público e privado, há algo evidentemente muito condenável neste episódio: a prática da ofensa e da intolerância. Assim como se tem feito contra Dilma Roussef, a deputada sorocabana foi ofendida pessoalmente, tendo sua imagem sendo puxada com “chifrinhos” e outros gracejos de mau gosto. Intolerância e desrespeito de cunho pessoais devem ser sempre condenáveis

A disputa pelas ruas é acirrada e muitas vezes ríspida. Não é óbvia, e muito menos um “jogo de cartas marcadas”. Inúmeras vezes devemos nos perguntar quem realmente ganha com um ato ou um movimento que, em um primeiro momento, pode parecer tão óbvio quanto uma pichação. Ou a destruição de uma escola anteriormente ocupada pela comunidade. Ou o fechamento de escolas ou postos de saúde de maneira arbitrária, práticas que, ainda que respaldadas pelo arranjo institucional, são tão antidemocráticas quanto violentas.

Na disputa pelo protagonismo nada é óbvio. Questione sempre. E como cidadão cobre respeito, para você e a cidade.

Foto: Facebook




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