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O descarte dos livros pela janela é barbárie ou Fahrenheit 451 é aqui

Lançar livros pela janela não é legal, mas é isso que aconteceu na escola “Estadão” (E.E. Julio Prestes de Albuquerque), quando vários livros foram lançados da janela do segundo andar direto para o chão, e depois para um caminhão. Alunos tentaram salvar alguns livros, porém, a quantidade era tanta que ficou difícil parar a barbárie.

Os livros foram jogados no caminhão porque, segundo informações dos estudantes, seriam destinados à reciclagem, um procedimento comum adotado pelas bibliotecas, pois os livros didáticos, por exemplo, conforme o órgão a qual pertencem, podem ter a vida útil estipulada em apenas 3 anos, uma vez que o material de estudo precisa ser renovado. Outros tipos de livros, podem sofrer danos graves, como fungos e traças, que o tornam impossíveis de serem doados.

Considerando que não sabemos com exatidão os livros que foram lançados pela janela, entendemos que a tragédia está no ato de lançar os livros pela janela, uma vez que a simbologia da ação não deixa nenhum ser humano confortável com a imagem. São nos próprios livros que podemos compreender o quanto é simbólico o ato de jogar, queimar e picotar livros, pois é assim que se torna possível a alienação, a falta de informação e, o mais perigoso, pessoas sendo controladas sem perceber.

No livro “Fahrenheit 451”, o autor Ray Bradbury apresenta um futuro em que os livros são proibidos, pois geram opinião própria, consideradas perigosas aos que controlam o estado. No livro “A menina que roubava livros”, em plena guerra, as crianças veem os livros sendo queimados por soldados e no clássico “1984” George Owell vai além ao relacionar um mundo em que as palavras são retiradas do vocabulário, para assim ser possível controlar a comunicação e as pessoas.

Uma notícia mais recente, envolvendo a editora CosacNaify (que encerrou suas atividades no início do ano), informa que o estoque da editora ainda é tão grande que será necessário transformar os livros em aparas. A informação, comoveu os leitores do Brasil inteiro, que, desesperados, lançaram diversas campanhas para que a editora não transforme os livros em pedaços de papel. Uma loja de livros on-line informou que irá comprar boa parte do estoque da editora, o que gerou uma certa calma nas pessoas mais incomodadas com a situação.

O que há em comum entre essas histórias reais e as de Orwell e Bradbury é que o livro se tornou um incômodo para as autoridades que veem na sua destruição a única solução para o problema. Nas escolas, sabemos que as bibliotecas não são frequentadas, nem pelos alunos, nem pela comunidade. Aliás, em Sorocaba, a Biblioteca Municipal fecha aos finais de semana e a biblioteca infantil reduziu sua programação nos últimos anos por falta de apoio da prefeitura. No nosso país, sabemos que a quantidade de leitores é pequena. Assim, o livro se torna apenas um objeto na prateleira e o ato de picotá-lo se torna simples, necessário e banal.

Há muito mais além do fronte. Se uma escola pública joga livros pela janela, é porque não possui um bibliotecário. É porque o Estado, a direção escolar, a comunidade, os alunos e todas as pessoas não se importam. É porque Fahrenheit 451 é aqui.

Há um ano Sorocaba teve o maior índice de ocupações escolares, quando o governo Alckimin anunciou o fechamento de várias escolas e a prefeitura da cidade também anunciou o fechamento do Ensino Médio. De lá para cá, o que mudou?

Nas eleições deste ano, um dos candidatos dizia que a principal diferença entre os prefeituráveis não era entre os de esquerda e os de direita, mas entre civilização e barbárie. Jogar livros desse jeito é barbárie. Enquanto o exercício de pensar de um jeito mais humano não for praticado com exaustão, o futuro das pessoas e das cidades será tão cruel quanto o futuro dos livros atirados pela janela.

Abaixo o vídeo que está circulando nas redes sociais desde ontem

(Foto: Campanha nazista de queima de livros, 1930)




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