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Mais uma vítima dos manicômios de Sorocaba

por Thiago Marques

Antônio, auxiliar de enfermagem do CAPS-3 Arte do Encontro, foi morto durante atendimento domiciliar a um usuário de nome Márcio. Não posso nem sonhar com a dor da família de Antônio, mas consigo imaginar a angústia e o sofrimento da família de Márcio. Para as duas famílias e amigos, todo meu sentimento e solidariedade.

Vejo as notícias de jornal, os comentários raivoso e virulentos nas redes sociais, e a exploração oportunista desta tragédia, e tenho uma única certeza:

Antônio é mais uma vítima fatal da cultura manicomial de Sorocaba: das décadas de preconceito, intolerância e estigma ligado ao sofrimento mental. Ele foi vítima da política de aprisionamento e tortura de pessoas com diagnósticos psiquiátricos. Antônio foi mais uma vítima fatal de décadas e décadas de omissão do Poder Público (em todos os níveis) com milhares de pessoas que eram abandonadas nos manicômios da cidade, deste 1895. Algumas ingressaram ainda crianças e passaram mais de 20 anos enclausuradas, sujeitas aos tratamentos mais desumanos e degradantes.

Antônio foi vítima da indústria da loucura e da exploração econômica da loucura: antes pelos manicômios, agora pela Rede privatizada via Organizações Sociais.

Antônio também foi vítima da cultura psiquiátrica de Sorocaba e da indiferença dos munícipes que só acordaram (por pouco tempo) de seu torpor quando viram estampadas nos jornais do país as imagens absurdas do que acontecia nos manicômios de sua cidade, ou pelas lentes escondidas do “Conexão Repórter”, do SBT.

Não conheço Márcio. Pelas notícias, soube que desde os 13 anos (uma criança!) anda pelas mãos de psiquiatras, entrando e saindo dos manicômios da cidade. Que hoje com 41 anos, retornou para perto dos pais, mas sem vínculos sociais estabelecidos e vivendo em condições subumanas, em um terreno próximo. Mesmo fora dos manicômios, reproduziu-se a dinâmica de abandono. Isto é desinstitucionalização?!?

Não conheço mais da história de Márcio, mas como familiar conheço o potencial destrutivo da instituição psiquiátrica, como pode aniquilar a sociabilidade e deixar cicatrizes subjetivas que o tempo dificilmente fecha (no internado e em sua família).

Como pesquisador e militante, sei que Márcio e Antônio foram vítimas de uma política de contornos manicomiais travestida de Saúde Mental, de um processo distorcido que vem ocorrendo desde a demissão de trabalhadores e gestores comprometidos com a Reforma Psiquiátrica, no final de 2014. Soube que Marcio era conhecido como “Capeta”… a que nível de desumanização a política de saúde de Sorocaba chegou? Que “cuidado” é este prestado da rede que se quer substitutiva, em Sorocaba? Como esperar algo diferente de uma política que não se orienta pela Atenção Psicossocial, mas por novas e mais sutis (perversas) estratégias manicomiais?

Como cidadão, me indigno que sejam naturalizados discursos de ódio direcionados a toda uma coletividade, reforçando preconceitos e pregando que lhe neguem direitos fundamentais e dignidade. Cito a decisão da Juíza Flavia Poyares Miranda, na condenação de Levy Fidelix, em 2015: Não se nega o direito à opinião, mas quando se emprega “palavras extremamente hostis e infelizes a pessoas que também são seres humanos e merecem todo o respeito da sociedade” há crime, pois “propagam falso sentimento de legitimação política de condutas discriminatórias, fortalecendo-se as condutas de exclusão e violência contra essa minoria”.

Espero que a Defensoria Pública mais uma vez se manifeste pela defesa dos direitos humanos, como tão bem fez no caso de Fidelix contra a comunidade LGBT.

Antônio, auxiliar de enfermagem, foi mais uma vítima da história manicomial de Sorocaba, vítima da intolerância, do preconceito e do estigma que costuram a relação da cidade com a loucura. Agora o que clama a multidão raivosa? Por mais aprisionamento, intolerância, preconceito e estigma. Quando a sociedade vai entender que a morte (física e/ou subjetiva) é a herança desta cultura manicomial? Quando vai assumir sua responsabilidade pelo holocausto manicomial brasileiro?

Às famílias, mais uma vez, todo meu sentimento e solidariedade.


Thiago Marques é doutor em Saúde Pública pela USP




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