Censura no Jornal Cruzeiro do Sul

Jornalistas do Cruzeiro do Sul sofrem censura e assédio moral

Jornalistas do jornal Cruzeiro do Sul foram pressionados a mudar reportagens e a produzir manchete contrária à Greve Geral do dia 28 de abril. A pressão fora feita por diretores da Fundação Ubaldino do Amaral, pelo comandante do Comando de Policiamento do Interior (CPI/7) e pelo secretário de segurança da Prefeitura de Sorocaba.

A redação do Jornal Cruzeiro do Sul foi surpreendida na última sexta-feira por um caso gravíssimo de censura e assédio moral típico de um estado de exceção. Vários jornalistas, órgãos de imprensa e lideranças sociais e comunitárias já se manifestaram sobre o assunto, sempre criticando o cerceamento à liberdade de imprensa.

Antônio Domingues Farto Neto – ARQUIVO JCS/ERICK PINHEIRO

Aparentemente motivados pela extensão da paralisação ocorrida em Sorocaba durante a Greve Geral, liderados pelo promotor de Justiça da Vara da Infância e Juventude de Sorocaba, Antônio Domingues Farto Neto, diretores da Fundação Ubaldino do Amaral, proprietária do jornal, e lideranças policiais da cidade foram à redação pressionar os jornalistas a adotarem postura abertamente parcial e contrária aos movimentos sociais.

O caso ocorreu na ausência do editor-chefe e do diretor-presidente da FUA. Com isso, Farto Neto teria ido à redação com um grupo de pessoas questionar os jornalistas pelo teor da manchete da edição de sexta-feira (“Paralisação vai afetar rotina e serviços básicos em Sorocaba”), responsabilizando-os pelo sucesso da greve geral. Considerando que estaria acompanhado de forças militares, o entendimento na redação foi de assédio moral e de que a liberdade jornalística garantido nas democracias estava sendo colocada em risco.

Foto publicada no blog O Deda Questão.

A resposta dos jornalistas foi institucional: retiraram seus nomes das edições seguintes, embora continuassem a realizar os seus trabalhos.

Prefeitura nega participação do secretário Pupin em ação de censura

Conforme apuramos, desde então o clima na redação é de muita apreensão, sobretudo se considerarmos que o jornal vive há meses grave crise econômica e vem sucessivamente reduzindo o número de empregados.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo fez uma longa nota na qual informou em detalhes todo o ocorrido.

Questionado pelo jornalista Deda Benette, Farto Neto não quis comentar o assunto. Restringiu-se a dizer que “deliberações estratégicas de Conselho de Administração de qualquer empresa séria não podem nem devem ser discutidas fora do âmbito interno”.

Leia a nota do Sindicato dos Jornalistas:

Censura e assédio moral no jornal Cruzeiro do Sul são encabeçados por promotor de Justiça: Desde dia 29, o jornal circula sem assinatura do editor-chefe e dos jornalistas

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) – Regional Sorocaba vem a público denunciar e repudiar a censura e o assédio moral sofridos por jornalistas, fotógrafos, diagramadores e editores da redação do jornal Cruzeiro do Sul, sediado no município de Sorocaba e mantido pela Fundação Ubaldino do Amaral (FUA), quando da cobertura da greve geral, ocorrida no dia 28 de abril de 2017.

Segundo relatos que chegaram ao SJSP-Regional Sorocaba, estamos diante de primeiro caso no interior do Estado de São Paulo de censura explícita dentro de uma redação, com imenso aparato intimidatório, após o fim da ditadura civil-militar no Brasil.

Conforme denúncias recebidas, o promotor de Justiça da Vara da Infância e Juventude de Sorocaba, dr. Antônio Domingues Farto Neto, que é membro do Conselho Consultivo da FUA (mantenedora do jornal em questão), comandou um dos episódios mais tristes e repugnantes da história do centenário jornal Cruzeiro do Sul ao promover um verdadeiro aparato de agressão moral para censurar o trabalho jornalístico dos referidos profissionais de imprensa.

Ainda conforme informações levantadas pelo SJSP-Regional Sorocaba, o promotor Farto Neto esteve na redação no dia 28 de abril acompanhado alguns integrantes dos conselhos da FUA, entre eles Francisco Antônio Pinto (Chicão), Valdir Euclides Buffo Junior, César Augusto Ferraz dos Santos, Tiberany Ferraz dos Santos, diretores da Vila dos Velhinhos de Sorocaba e o presidente da FUNDEC, Luiz Antônio Zamuner. Também estavam presentes ao fatídico episódio o coronel Antônio Valdir Gonçalves Filho, comandante do Comando de Policiamento do Interior (CPI/7), e o atual secretário de Segurança e Defesa Civil da prefeitura de Sorocaba, José Augusto de Barros Pupin.

Segundo informações, o promotor Farto Neto, em sala fechada e na presença desse conjunto de autoridades, passou a agredir de forma destemperada os profissionais de imprensa, com direito a gritos, ofensas e ameaças. Dessa forma intimidatória, o promotor afirmou que o êxito da greve geral era responsabilidade da manchete do jornal Cruzeiro do Sul da sexta-feira, 28, e que era preciso “limpar o desserviço feito” e criar uma “agenda positiva” e, para isso, era primordial engrandecer o trabalho da Polícia Militar e da Guarda Civil Municipal. Segundo relatos, a manchete publicada no dia 29 “Paralisação prejudica o trabalhador sorocabano” foi ditada por Farto Neto, e o comandante do CPI-7 e o secretário Pupin foram entrevistados na presença de pessoas do grupo acima mencionado, mais uma forma de intimidação aos jornalistas.

Portanto, conclui-se que o objetivo de tamanha agressão era impor uma linha editorial que contemplasse apenas um posicionamento, o do interesse das pessoas que estavam junto ao promotor, nas matérias relacionadas à greve geral, deixando de lado até então o compromisso do centenário jornal Cruzeiro do Sul com a cobertura ética, imparcial e objetiva, ouvindo todos os lados da história como a sociedade espera de um veículo de imprensa.

O SJSP-Regional Sorocaba constatou que nesse dia 28 de abril, o presidente do Conselho Administrativo da FUA e diretor-presidente do jornal, José Augusto Marinho Mauad (Gugo), e o editor-chefe, José Carlos Fineis, não estavam presentes no jornal. Gugo estava fora da cidade e Fineis em licença saúde.

Ainda segundo relatos, nunca ocorreu episódio de tamanha agressão e intimidação na redação do jornal Cruzeiro do Sul.

Diante dos fatos denunciados, o SJSP-Regional Sorocaba lamenta profundamente que um promotor de Justiça, um homem público e com papel de grande responsabilidade na sociedade, se preste ao papel de intimidar profissionais da imprensa.

O SJSP-Regional Sorocaba lamenta também que o coronel Antônio Valdir Gonçalves Filho, do CPI/7, e o secretário de Segurança e Defesa Civil, José Augusto de Barros Pupin, tenham sido coniventes com o assédio moral aos jornalistas.

O SJSP-Regional Sorocaba lamenta que membros da Fundação Ubaldino do Amaral, instituição que tanto se orgulha de promover assistência social em nosso município, tenham praticado e presenciado tamanho desrespeito à liberdade de imprensa.

O SJSP-Regional Sorocaba lamenta que a credibilidade do centenário jornal Cruzeiro do Sul seja prejudicada por essa irresponsável e criminosa atitude e cobra um posicionamento da direção, pois acredita que a sociedade sorocabana e da região tem o direito de saber se teremos um veículo chapa-branca ou se teremos um veículo comprometido com o bom fazer jornalístico, que apura os fatos com isenção política e apresenta os diversos pontos de vista sobre as ocorrências.

Por último, o SJSP-Regional Sorocaba parabeniza o corpo de profissionais de imprensa e o editor-chefe por terem se mantido ao lado do bom fazer jornalístico e do compromisso com a sociedade em veicular informações condizentes com a realidade, mesmo diante de grande assédio e pressão. Parabenizamos a coragem dos jornalistas que não compactuaram com a interferência política violenta e que desde o dia 29 de abril não assinam expediente e matérias no jornal Cruzeiro do Sul.

O SJSP-Regional Sorocaba reconhece também a posição ética e comprometida do diretor-presidente José Augusto Marinho Mauad (Gugo), que desde o dia 29 de abril assina o jornal como diretor-presidente licenciado.

O SJSP-Regional Sorocaba está acompanhando o desenrolar dos fatos dentro do jornal Cruzeiro do Sul e está tomando as medidas necessárias para preservar o emprego e a integridade dos profissionais de imprensa.

O SJSP-Regional Sorocaba espera que esse triste episódio possa ser elucidado, se colocada a disposição das autoridades acima mencionadas para esclarecimentos dos ocorridos e que a FUA tenha a compreensão de preservar os profissionais do jornal e se mantenha ao lado do bom fazer jornalístico.

É fato que a credibilidade do jornal Cruzeiro do Sul está nas mãos dos jornalistas que, sendo o elo mais fraco na relação empregador-empregado, tiveram a coragem de se posicionar contra um feroz ataque à liberdade de imprensa.

Por fim, a sociedade sorocabana está ciente da crise ética instalada no jornal e, conforme o andamento, todos saberão se o Cruzeiro do Sul será um jornal chapa-branca, a serviço de apenas um grupo político e social, ou um jornal a serviço da sociedade.

Diretoria da Regional Sorocaba do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP)

 

 

 

 




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