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Confrontos “pós-coerção” já estão na rua; quem poderá minimizá-los?

Por Alceu Luís Castilho*

Claro que a escalada neofascista no Brasil não começou na sexta-feira, dia em que o ex-presidente Lula foi levado coercitivamente para depor no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. E todos sabemos que os ânimos entre petistas e tucanos têm sido acirrados gradualmente, especialmente ao longo deste século. Mas já há sinais de que podemos viver nos próximos meses um momento delicado no campo da violência política. E se procuram vozes e instituições capazes de amenizar esse clima pesado, trincado – essa fissura. Onde estão elas?

Em Sorocaba, ainda na sexta-feira, houve briga feia: “Militantes de direita e esquerda entram em confronto“. Cerca de 30 tucanos distribuíam adesivos onde se viam duas mãos algemadas. Mas uma delas tinha apenas quatro dedos. (Caberia também uma reflexão sobre certa aliança recente entre a falta de ética e de estética, entre a cafajestagem e o mau gosto.) Do outro lado, 30 militantes petistas e de movimentos sociais, em protesto contra a condução coercitiva de Lula. Resultado: confronto. O homem da foto, ensanguentado, é do PSDB, e já foi vereador do PT. 

Em Belo Horizonte, também na sexta-feira, a jornalista Laura de Las Casas contou no Facebook que voltava do almoço numa rua tranquila, quando escutou um casal berrando em um carro, na Avenida Getúlio Vargas (atentem para a simbologia do nome), com as cabeças pra fora das janelas. O homem dirigia e gritava: “Sua petista, filha duma puta, aposto que sua mãe puta também é petista! O país tá uma merda! Vocês são nojentos!”. Ela continuou andando, e a mulher gritou: “Vaca, tá de vestidinho curto, mas aposto que é sapatona! Comunista filha da puta!” Só então Laura percebeu que era com ela: era seu vestido vermelho, de linho, o motivo para a fúria.

Entre sábado e domingo, as sedes do PT e do Instituto Lula, em São Paulo, foram pichadas. Em Belo Horizonte a sede do PT foi também depredada. (Lembremos que, em 2013, quando o neofascismo emergia nas ruas, a sede nacional do PT foi depredada, em São Paulo.) Também no sábado, repórteres da Globo e da Band foramhostilizados por manifestantes governistas; uma repórter quase teve uma câmera furtada; um carro da emissora foi recebido a pontapés. (A história tem se repetido como violência: também em 2013 manifestantes fora da disputa PT x PSDB investiram contra veículos de imprensa; um carro da Record foi queimado.)

Procuram-se estadistas

Quando se pergunta, portanto, a quem caberia minimizar o clima bélico, fica difícil imaginar um papel ponderado dos meios de comunicação. E não só por serem vítimas desses manifestantes exaltados (e violentos), mas porque eles mesmos – seus donos, seus acionistas – estiveram entre os principais ateadores de fogo no ambiente político, funcionaram nos últimos anos como partido e como incitadores, participaram diretamente desse espírito seletivo de investigação que atiça os ânimos de oposicionistas (porque insuflados por uma abordagem cínica) e governistas (quase acusados de terem inventado a corrupção no mundo).

E a polícia, será então a polícia a responsável por apaziguar os ânimos? Do ponto de vista legal, sim. Mas quem acredita nisso? É bem verdade que policiais militares de todas as Unidades da Federação (governadas por PT ou PSDB, PMDB ou PSB) já não são conhecidos pela capacidade diplomática, em condições normais de temperatura e pressão. Só que tudo pode ser pior. A partir do momento em que policiais tiram selfies com manifestantes de um determinado espectro político e partem para cima de manifestantes de outro espectro (ainda que não necessariamente petistas), caem por terra as esperanças de um mínimo de isenção e equilíbrio.

Estadistas, onde estão os estadistas? A presidente não sabe se comunicar. É extremamente atrapalhada. E, ela mesma, pivô da crise, alvo do ódio de parcela da população. O mesmo vale para um dos melhores oradores do país, Luiz Inácio Lula da Silva. Ou para Fernando Henrique Cardoso. E não que esses não sejam importantes para conter o ímpeto de seus correligionários. Mas onde estariam os estadistas de fora desse processo? Marina Silva perdeu a oportunidade de se colocar nessa terceira via, ao se posicionar a favor do impeachment de Dilma Rousseff. Outros líderes possíveis aderiram ao mesmo barco da insensatez. Poucos priorizaram a preservação da democracia.

E, portanto, estamos à deriva. Com o Judiciário engajado, o Legislativo sem credibilidade (em seu milagre de multiplicação de parlamentares investigados ou presos), o Executivo em disputa eternizada, vácuo no Ministério da Justiça, os meios de comunicação tradicionais amalgamados com o Judiciário, restaria pensar nos meios de comunicação alternativos como espaços de convite ao bom senso. Só que isto soa como piada. Já que as redes sociais potencializaram o confronto, a intolerância, e são poucos os veículos contra-hegemônicos que mantêm um mínimo de serenidade e apego à reflexão.

E, mesmo assim, caberia aos expoentes de cada uma dessas instituições (ou desses campos) fazer diariamente uma disputa política muito específica: essa por um mínimo de civilidade. Sem acessos de ingenuidade e sem passividade, já que existe no país uma luta nítida e feroz pelo poder (e a movimentação do mercado financeiro mostra que a briga é mais em cima), mas sem perder jamais o gosto pela ternura. “E onde queres ternura, eu sou tesão/ Onde queres o livre, decassílabo/ E onde buscas o anjo, sou mulher/ Onde queres prazer, sou o que dói/ E onde queres tortura, mansidão/ Onde queres um lar, revolução/ E onde queres bandido, sou herói”.  (Caetano Veloso, “Quereres”, 1984).

Que andemos para além de 1984. Em meio às contradições. Mas não para trás. Para a frente.

PS: O Brasil 247 traz nesta segunda-feira um texto com o seguinte título: “Capitão da PM posta foto com arma sobre o próximo dia 13“. “Se os petralhas querem azucrinar no dia 13 de março”, escreveu ele no Facebook, “eu quero estar preparado para os bandidos”.

*Alceu Castilho é jornalista formado pela Universidade de São Paulo (USP). Autor do livro “Partido da Terra – como os políticos conquistam o território brasileiro” (Editora Contexto, 2012).




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